Apneia do sono

Descobri que tenho apneia do sono. E agora?

Depois do diagnóstico de apneia do sono, o primeiro passo é ler o exame inteiro, não só o índice de apneia: tipo de evento, duração, posição e oxigenação mudam o tratamento. Apneia leve tem opções além do CPAP; moderada já pede CPAP na maioria dos casos; grave é CPAP ou BiPAP, com a máscara certa e acompanhamento, senão vira abandono.

Esta conversa é para quem saiu do consultório com o laudo na mão, ouviu “o senhor tem apneia grave, vai ter que usar CPAP”, e não sabe para que lado olhar. Nem sempre é CPAP, já adianto. Mas também não é ignorar o exame e deixar para lá.

Sou a Bianca, fisioterapeuta respiratória, há mais de 15 anos acompanhando pessoas com apneia do sono. Vamos do começo: como você descobriu, o que o exame diz e o que fazer com cada resultado.

O exame feito em casa vale?

Vale, e tem recomendação forte. A polissonografia de laboratório, a do tipo 1, tem eletroencefalograma para mapear as fases do sono, eletromiografia do queixo para bruxismo, sensor na perna para síndrome das pernas inquietas e mais pontos de eletrocardiograma. Esses sinais a mais servem para outros distúrbios do sono, como insônia e parassonias.

Para quem tem alto risco de apneia, a Academia Americana de Medicina do Sono recomenda o exame domiciliar. Alto risco é: roncar (mesmo que só os outros percebam), sobrepeso, sexo masculino, mais de 45 anos e circunferência de pescoço aumentada. Dá para medir em casa, na parte mais larga do pescoço: acima de 39 cm nos homens e 34 cm nas mulheres é alto risco.

O exame domiciliar tem sensor no nariz, sensor no dedo (saturação, frequência cardíaca), cinta de esforço torácico e, em alguns casos, abdominal. É a soma do que a gente precisa para laudar um distúrbio respiratório do sono. Em cerca de 18% dos casos é preciso repetir a noite, e o laboratório avisa. Não fique inseguro com o seu exame. Se ainda não fez nenhum, comece pelos sinais de apneia do sono.

O índice de apneia basta para entender o meu caso?

Não. O IAH, índice de apneia e hipopneia, dá a gravidade: até 5 é normal, até 15 é leve, de 15 a 30 é moderada, acima de 30 é grave. Mas sozinho ele é raso. Vamos usar um exemplo real de consultório: uma pessoa com 36 eventos por hora.

O que olhar no examePor que importa
Tipo de eventoApneia obstrutiva é obstrução de pelo menos 90% da passagem de ar; hipopneia, de pelo menos 30%; central é o cérebro mandando parar; mista começa central e vira obstrutiva. Hipopneia é muito mais fácil de tratar
Duração média36 eventos de 12 segundos, quase todos hipopneias, não se tratam como 36 eventos de 40 segundos, quase todos obstrutivos
PosiçãoSe de barriga para cima o índice é 58 e de lado é 17, a apneia é grave posicional, e isso abre outras abordagens
OxigenaçãoMédia (o ideal fica entre 95 e 100%), mínima, e o tempo abaixo de 90%. Mais de 5 minutos abaixo de 90% já é hipoxemia e pede mais atenção
Frequência cardíacaMédia e máxima durante a noite

Eu não trato duas pessoas com 36 eventos por hora da mesma forma. A conta terapêutica muda com o tipo, a duração e a posição. Para ler o seu laudo linha por linha, o artigo sobre como ler a polissonografia vai página por página.

Apneia leve: preciso de CPAP?

Não necessariamente. Para até 15 eventos por hora, existem opções.

Redução de peso, sempre que a causa for sobrepeso. É a primeira escolha em qualquer gravidade, e não só pela apneia: reduz risco cardiovascular, pulmonar e neurológico. E aqui vai um fato: a apneia engorda. Trinta e seis eventos por hora são 36 microdespertares por hora. O cérebro entende que a pessoa passa a noite acordada, entra num padrão de economia de energia e faz reserva. Por isso é muito mais fácil emagrecer tratando a apneia ao mesmo tempo do que esperar emagrecer primeiro para a apneia sumir.

Aparelho intraoral, feito por dentista especialista em sono: duas placas, uma na mandíbula e uma na maxila, com parafusos que mantêm a boca levemente aberta e projetada para frente, ganhando espaço atrás da língua. Vai muito bem na apneia leve. Nas apneias longas, com aquele ronco ressuscitador, pode até quebrar o aparelho, e ele não é barato: por isso precisa de especialista.

Fisioterapia respiratória: fortalecimento da musculatura respiratória, eletroestimulação, exercícios direcionados, mudança de postura de sono. Terapia miofuncional, normalmente com fonoaudiólogo: exercícios de língua e garganta, porque a língua também engorda e ganha volume. O passo a passo está em exercícios para apneia do sono. E a cirurgia de avanço mandibular.

Todas essas opções, com os números de cada uma, estão em tratamento para apneia sem CPAP.

E uma coisa que precisa ser dita: quando eu falo de apneia, eu falo do nariz para baixo. O ronco e a apneia acontecem na garganta. Cirurgia de desvio de septo ajuda a respirar e a adaptar ao CPAP com máscara menor, mas não é tratamento de apneia. As cirurgias que tiram parte do palato e a úvula, comuns anos atrás, melhoram até 20% em jovens ativos e saudáveis. No nosso exemplo de 36 eventos, a pessoa cairia para uns 28 e continuaria precisando de CPAP.

Também já tive pacientes com apneia leve que escolheram o CPAP pelos sintomas, não pelo índice: acordavam exaustos, com sono não reparador, e tiveram melhora importante. Não é para todo mundo, mas existe.

Apneia moderada: qual é o caminho?

Aqui a gente já começa a pensar em CPAP. Se a pessoa é pouco sintomática e não passa mais de 5 minutos com a saturação abaixo de 90%, dá para tentar o caminho parecido com o da apneia leve: exercícios, redução de peso, mudança de hábitos.

E hábito é sério. Quando um paciente me diz que não sente melhora com o CPAP, que continua cansado, e eu já configurei tudo o que dava para configurar, a gente vai olhar e a pessoa dorme quatro horas e meia por noite. Tratar a apneia não dá licença para dormir quatro horas. Precisamos de pelo menos seis horas e meia, com ritmo: horário estável, quarto feito para dormir, menos tela antes de deitar. Algumas coisas eu consigo ajustar; milagre, ainda não.

E cuidado com remédio para dormir: alguns indutores de sono e antidepressivos relaxam a musculatura, e musculatura relaxada desaba para trás. Eles podem piorar a apneia.

Apneia grave: CPAP ou BiPAP

Acima de 30 eventos por hora, é CPAP e, em alguns casos, BiPAP. O CPAP é o padrão ouro para moderada e grave, e o artigo sobre o que é o CPAP e como ele funciona explica o mecanismo.

Mas nenhum dos dois vem com fórmula mágica. Existe quem compra o automático, liga na tomada e usa. É exceção. Mesmo o automático precisa ser ajustado e calibrado para cada caso. E o que decide o sucesso, mais do que ter o CPAP top de linha, é a máscara certa. Um aparelho simples, bem configurado e calibrado, funciona. A dificuldade quase sempre está na interface. Os critérios que eu uso estão em como escolher a máscara de CPAP certa.

O número que me preocupa: mais de 50% das pessoas abandonam o CPAP em seis meses. Não tenho dúvida de que não foram bem acompanhadas. Quem acompanha comigo sabe que a gente fica no pé. Não é para usar por usar: é para não ter, lá na frente, o evento cardíaco, neurológico ou vascular que o aparelho que já está em casa poderia prevenir.

E se você comprou um CPAP anos atrás, não se adaptou e ele ficou no armário? Dá para recomeçar com o mesmo aparelho. Em seis anos muda peso, hábito, tudo. O que não dá é recomeçar com a mesma máscara e a mesma configuração de antes. É reiniciar: máscara adequada para o seu caso de hoje, ajuste de hoje.

O essencial, em 30 segundos

  • Exame em casa tem recomendação forte para quem tem alto risco.
  • Leia além do IAH: tipo, duração, posição e oxigenação mudam o tratamento.
  • Leve: peso, aparelho intraoral, fisioterapia, exercícios de garganta, avanço mandibular. CPAP em alguns casos, pelos sintomas.
  • Moderada: CPAP na maioria; hábitos de sono são obrigatórios.
  • Grave: CPAP ou BiPAP, com a máscara certa e alguém acompanhando.
  • Cirurgia de nariz não trata apneia. Ajuda a adaptar.
  • Metade abandona em seis meses. O acompanhamento é o que muda essa estatística.

O próximo passo

Pegue o seu laudo e olhe as páginas que vêm depois do índice. Se o número for leve, você tem escolhas. Se for moderado ou grave, a decisão certa não é “qual CPAP comprar”: é “quem vai me acompanhar até eu estar adaptado”.

Se quiser que eu olhe o seu exame com você, por videochamada, de qualquer estado ou país, me chame no WhatsApp. A prescrição certa custa menos do que uma máscara comprada errada.

Conte comigo.

AVISO: Este conteúdo reflete a experiência clínica e opinião profissional da Dra. Bianca Horongozo. Consulte seu médico ou fisioterapeuta especialista em sono para orientação individualizada.

Quer isso aplicado ao seu caso?

Conteúdo ajuda, mas cada caso é um caso. Do exame domiciliar à adaptação completa ao CPAP, com acompanhamento humano.