Apneia do sono não é doença de idoso, é doença de via aérea. Uma revisão sistemática de 2024 encontrou 16% de prevalência em adultos de 18 a 30 anos, ou seja, 1 em cada 6 jovens. Idade é fator de risco, não pré-requisito: peso, anatomia, obstrução nasal e genética pesam em qualquer idade.
Eu sou fisioterapeuta respiratória, trabalho com sono há mais de 15 anos e já acompanhei mais de 2.000 pessoas na adaptação ao CPAP, dos 20 e poucos aos 90 e tantos anos. E esse mito de que apneia é “coisa de velho” é um dos mais perigosos da medicina do sono.
Porque ele dá uma permissão silenciosa para a pessoa de 30, 35, 40 anos ignorar ronco, cansaço crônico, queda de produtividade, irritação e até redução da libido. E ir empurrando por anos achando que é estresse, burnout ou “fase ruim”.
O que é apneia obstrutiva do sono?
A apneia obstrutiva do sono acontece quando a musculatura da garganta relaxa demais durante o sono e a via aérea fecha, parcial ou totalmente. A via aérea é o caminho que o ar percorre do nariz até o pulmão. Pense num canudo flexível: se as paredes amolecem, ele amassa e o ar não passa.
Quando fecha parcialmente, você ronca. Quando fecha de vez, o ar para de passar. O cérebro percebe, te acorda, muitas vezes sem você notar, e o ciclo recomeça. Isso pode acontecer 5 vezes por hora. Ou 60. Depende da gravidade.
A idade é um fator de risco? É. Assim como para pressão alta e diabetes. Mas fator de risco não é pré-requisito. A questão é uma via aérea que colapsa durante o sono, e isso pode acontecer por peso, anatomia facial, obstrução nasal, posição de dormir ou genética.
Se você quer entender em detalhe o que essas pausas fazem com o corpo, eu explico em o que acontece quando você para de respirar.
O que dizem os números sobre apneia em jovens?
Em 2024, pesquisadores da Universidade de Warmia e Mazury, na Polônia, publicaram uma revisão sistemática no Journal of Clinical Medicine. Eles vasculharam quase 6.000 estudos e selecionaram 11 que atendiam critérios rigorosos, todos usando polissonografia ou teste de sono domiciliar, nada de questionário. Ao todo, mais de 2.000 pessoas entre 18 e 30 anos foram avaliadas.
O resultado: 16% de prevalência de apneia obstrutiva do sono nessa faixa. 1 em cada 6 jovens adultos. E os autores concluíram que esse número provavelmente está subestimado, porque a maioria dos estudos analisou voluntários saudáveis, pessoas que nem se queixavam de nada.
Agora olhe para o Brasil. O estudo EPISONO, conduzido pelo professor Sérgio Tufik, do Instituto do Sono de São Paulo, um dos maiores projetos de pesquisa sobre sono do mundo, encontrou apneia em 37,12% da população paulistana, numa amostra de adultos de 20 a 80 anos. Só entre 30 e 39 anos, 22,38% das pessoas e 39,13% dos homens apresentaram apneia do sono.
É muita gente para um problema que seria “de velho”.
O que causa apneia em quem é jovem?
Se não é só a idade, o que fecha a via aérea de uma pessoa de 25, 30, 35 anos? Estes são os fatores que eu mais vejo no consultório:
| Fator | Como ele age na via aérea |
|---|---|
| Excesso de peso | Gordura na região do pescoço comprime a via aérea. Em homens, pescoço acima de 42 cm já liga um alerta. |
| Anatomia craniofacial | Mandíbula recuada, palato estreito ou língua grande deixam o espaço do ar naturalmente menor. |
| Obstrução nasal crônica | Rinite, desvio de septo ou cornetos aumentados (estruturas internas do nariz). A boca abre, a língua cai para trás e a via aérea estreita. |
| Álcool à noite | Relaxa a musculatura da garganta. Aquele “ronco da sexta à noite” tem explicação bem clara. |
| Dormir de barriga para cima | A gravidade puxa a língua e os tecidos moles para trás. Em algumas pessoas, isso basta. |
| Histórico familiar | Se pai ou mãe tem apneia, o risco sobe. |
Repare: nenhum desses fatores depende de ter 60 anos. Tem gente de 25 anos com via aérea anatomicamente estreita.
Ah, e o ronco. Se alguém que dorme perto de você já reclamou do seu ronco, não leve como piada: roncar não é normal. Eu falo sobre os caminhos em tratamentos para parar de roncar.
Quais sinais os jovens costumam ignorar?
O jovem adulto com apneia não chega ao consultório dizendo “acho que tenho apneia”. Ele chega dizendo:
- “Estou exausto. Durmo 7 horas e acordo destruído.”
- “Minha concentração está péssima. Não consigo focar no trabalho.”
- “Estou irritado com tudo. Minha esposa diz que eu mudei.”
- “Minha libido caiu e eu não sei por quê.”
- “Tenho dor de cabeça de manhã quase todo dia.”
Aparentemente, é uma pessoa saudável. Vai ao psicólogo achando que é ansiedade. Toma suplemento de magnésio, troca o café, baixa aplicativo de meditação…
E ninguém pergunta: como é o seu sono? Você ronca? Alguém já falou que você para de respirar dormindo? Ninguém. Porque apneia é “coisa de velho”, lembra?
O problema não é você. É que ninguém olhou para o seu sono.
Como um áudio de celular revelou uma apneia grave aos 34 anos?
Atendi um paciente de 34 anos. Empresário, ativo, malhava, comia relativamente bem. Pescoço largo, mas nada que chamasse atenção à primeira vista.
Ele me procurou porque a esposa gravou o sono dele. No celular mesmo. No áudio dava para ouvir claramente: ronco alto, uma pausa longa, uns 40 segundos de silêncio total, e depois aquele engasgo de quem está lutando para puxar o ar.
Ela ficou assustada. Ele ficou mais.
Fez a polissonografia, o exame que registra o seu sono durante uma noite inteira e mostra quantas vezes a via aérea fecha por hora. Resultado: apneia grave, mais de 40 eventos por hora. Com 34 anos.
Sabe o que ele me disse? “Bianca, eu passei 5 anos achando que estava cansado por causa do trabalho.”
O que fazer se você se identificou?
Ronco frequente, cansaço que não melhora com sono, dor de cabeça matinal, queda de foco. São sinais, e eles merecem investigação.
O primeiro passo é organizar um exame de sono. É ele que mostra, com números, o que está acontecendo com a sua respiração enquanto você dorme. Se estiver em dúvida por onde começar, minha equipe e eu podemos organizar isso com você: veja como funciona na página de serviços.
E se o exame confirmar apneia e o CPAP entrar no seu tratamento, você não precisa descobrir tudo sozinho, por tentativa e erro. É para isso que existe o Descomplica CPAP.
Perguntas frequentes
Apneia do sono acontece só em pessoas mais velhas?
Não. Uma revisão sistemática de 2024 encontrou 16% de prevalência em adultos de 18 a 30 anos, e os próprios autores consideram esse número subestimado. No Brasil, o EPISONO encontrou apneia em 22,38% das pessoas entre 30 e 39 anos. A idade aumenta o risco, mas não é pré-requisito.
Roncar todas as noites é normal?
Não. O ronco é o som da via aérea fechando parcialmente durante o sono. Ronco frequente merece investigação, principalmente se vier acompanhado de cansaço que não melhora, pausas na respiração ou dor de cabeça matinal.
Quantas vezes a via aérea pode fechar durante o sono?
Depende da gravidade. Pode acontecer 5 vezes por hora, ou 60. O paciente de 34 anos desta história tinha mais de 40 eventos por hora e passou 5 anos sem saber.
Qual exame confirma a apneia do sono?
A polissonografia ou o teste de sono domiciliar. Os dois registram o seu sono durante uma noite e mostram quantas vezes a via aérea fecha por hora. Foram esses os exames exigidos nos estudos citados aqui.
Se você se identificou, investigue, não empurre por mais 5 anos. E se quiser receber orientações práticas sobre sono toda semana, assine a newsletter. Conte comigo.