Na primeira noite com CPAP, comece com pressão leve usando a rampa, e não com a pressão prescrita na polissonografia. Ative o alívio expiratório se o seu caso permitir, respire devagar pelo nariz, coloque a máscara alguns minutos antes de apagar a luz e confira o relatório no aplicativo pela manhã.
Comprar um CPAP e sair usando, sem as configurações e a máscara certas para você, é a mesma coisa que comprar um carro automático, usar só a função manual, e depois ficar reclamando que o carro não presta. É exatamente o que muita gente faz: compra sozinho, não configura, não tem a máscara certa, não está na pressão certa, e ainda culpa o aparelho. Tadinho do CPAP, não merece isso.
Sou a Bianca, fisioterapeuta respiratória, há mais de 15 anos acompanhando adaptação ao CPAP. Eu já dormi várias noites com o aparelho, então o que vem a seguir eu falo com propriedade.
Comece com uma pressão leve, não com a prescrita
Vamos fazer esse carro automático andar no modo automático.
Você não precisa começar direto na pressão que veio titulada na polissonografia. Se a prescrição diz 10 centímetros de água, esse 10 é o destino, não a largada.
Abuse da rampa. Todo aparelho de CPAP tem essa função: a terapia começa mais leve e vai subindo, e é isso que garante que você consiga pegar no sono confortável. Ao longo dos dias a pressão de tratamento vai aumentando, junto com quem te acompanha, e está tudo bem.
Não tem por que traumatizar as primeiras noites ficando agoniado com a quantidade de ar. Comece de um jeito agradável.
Ative o alívio expiratório
Sabe aquela sensação de estar lutando contra o aparelho, de ficar pesado e cansar de tanta força para soltar o ar? Quase sempre é o alívio expiratório desativado.
Todo CPAP tem essa função, mesmo os comprados há mais de dez anos. O que muda é o nome:
| Marca | Nome da função |
|---|---|
| ResMed | EPR |
| Philips | A-Flex ou C-Flex |
| Fisher & Paykel | SensAwake |
Quando você solta o ar, o aparelho baixa um pouco a pressão, e a expiração fica leve.
Uma ressalva honesta: não é para todos os casos. Vai bem para a maioria, mas algumas pessoas com apneia residual ou outras condições podem não se beneficiar. Por isso vale confirmar com quem acompanha o seu tratamento antes de deixar ligado.
Respire pelo nariz, e devagar
Esse ajuste não está em menu nenhum, e é o que mais rápido dá resultado.
Com o CPAP no rosto, puxe pelo nariz e solte pelo nariz. Evite puxar pelo nariz e soltar pela boca. Uma respiração 100% nasal, bem devagarzinho, se torna natural em poucas noites.
Se você conseguir se concentrar em respirar mais com a barriga do que com o peito, melhor ainda. Isso se chama respiração diafragmática, e ajuda demais no controle da respiração e na entrada no sono profundo.
Não é só técnica de CPAP: é relaxamento e higiene do sono, e faz você pegar no sono mais rápido e de um jeito mais fisiológico.
Coloque a máscara antes de apagar a luz
Um erro clássico de quem está começando: enfiar o aparelho no rosto na hora exata de dormir, e ficar ali estressado, nervoso e ansioso esperando o sono chegar. Assim não dá certo.
Coloque o CPAP alguns minutos antes de apagar a luz. Use esse tempo para se preparar para o sono, respirando devagar, deixando o corpo entender que aquilo ali é normal.
Toda essa prática de relaxamento vale muito mais do que parece.
Acompanhe os seus dados desde a primeira noite
Hoje a maioria das marcas tem aplicativo próprio de monitoramento, e ele é gratuito.
Isso te dá autonomia. Você não precisa ficar preso ao seu clínico para saber como está o seu tratamento. Todo dia de manhã, no seu celular, você pode ver quantas apneias teve na noite, quanto de ar vazou e se a pressão está estável.
Os principais são o MyAir da ResMed, o DreamMapper da Philips, o SleepStyle da Fisher & Paykel, o SmartLive da Gaslive e o PAP Link da BMC. Todos existem para Android e para iOS, e eu reuni os links de download de cada um neste PDF, para você não precisar procurar.
Esses detalhes é que te dão a certeza de que a terapia está funcionando de verdade, e não só a sensação de que está.
Trate a adaptação como atividade física
Essa é a comparação que eu mais uso com quem está começando, e que resolve a ansiedade da primeira semana.
Quem nunca fez exercício sente dor no dia seguinte, e no segundo dia já não quer repetir. O corpo sente, se movimenta e se adapta. O CPAP é igual.
O que importa é a regularidade. Um pouquinho todos os dias, em doses homeopáticas, mas de forma constante. Usar dois dias, parar uma semana e usar mais um dia torna a vida muito mais difícil, porque cada retomada custa como se fosse o começo de novo.
Fazendo de pouco em pouco, todos os dias, chega o momento em que flui leve e você nem pensa mais nisso.
O essencial, em 30 segundos
- Rampa ligada. Comece leve, não na pressão prescrita.
- Alívio expiratório, se o seu caso permitir.
- Nariz, nariz, devagar, respirando com a barriga.
- Máscara alguns minutos antes de apagar a luz.
- Aplicativo instalado desde a primeira noite.
- Todos os dias, mesmo que pouco. Regularidade vence intensidade.
O próximo passo
Se você começou sozinho e sentiu que não funcionou, nada disso está perdido. Recomeçar do jeito certo é a mesma conversa: pressão confortável, alívio expiratório, máscara adequada e acompanhamento dos dados.
Antes da sua primeira noite, vale ler também os erros mais comuns no uso do CPAP, para não pegar nenhum vício logo de saída, e o artigo sobre o que é o CPAP e como ele funciona, se ainda restar dúvida sobre o que o aparelho faz.
E se você quer aprender tudo isso com calma, no seu tempo, com videoaulas práticas que vão do diagnóstico ao ajuste fino da máscara, é o que eu montei no Descomplica CPAP. Tem muita coisa lá que não está nos vídeos abertos do canal.
Precisando de um olhar no seu caso, me chame no WhatsApp, inclusive por telemonitoramento, de qualquer estado ou país.
Conte comigo.