O CPAP não vicia. Ele não é medicamento e não provoca nenhuma mudança química ou neurológica no organismo, então não existe dependência no sentido do vício. O que existe é o efeito dele valer só na noite em que é usado: parou de usar, a apneia volta como era antes.
Essa é uma das perguntas que mais chegam até mim, e quase sempre vem antes de a pessoa começar o tratamento. “Se eu começar, vou ficar preso nisso para sempre?” É uma dúvida legítima, e ela merece uma resposta clara, sem rodeio.
Sou a Bianca, fisioterapeuta respiratória, há mais de 15 anos acompanhando adaptação ao CPAP.
Por que o CPAP não pode viciar
Começo pelo mais importante: o CPAP não é um medicamento.
Ele é um equipamento que, associado a uma máscara que vai só no nariz ou na boca e nariz, ajuda a pessoa a respirar a noite inteira. O aparelho manda uma quantidade de ar suficiente para manter a via aérea aberta.
Vício e dependência acontecem quando uma substância provoca alterações químicas e neurológicas no organismo. O CPAP não faz nenhuma dessas mudanças. Ele empurra ar. É mecânico, não farmacológico. Por isso não faz sentido falar em vício.
Se você quiser entender o mecanismo com calma, o artigo que explica o que é o CPAP e como ele funciona mostra o caminho do ar desde o aparelho até a garganta.
Então por que parece que quem usa não vive sem?
Porque a diferença que ele faz é grande demais para se abrir mão.
Com o CPAP bem ajustado, a pessoa deixa de ter as interrupções ao longo da noite e passa a dormir a noite inteira, com todas as fases do sono acontecendo como deveriam. Isso reflete num dia muito mais disposto, com energia, e com o sistema imunológico dentro dos padrões.
Quem chega nesse ponto faz questão de usar o aparelho todas as noites. Não porque está preso a ele: porque sabe exatamente como é o dia seguinte sem ele.
O que acontece nas noites em que você não usa
Muita gente confunde o que vem a seguir com abstinência.
O CPAP tem efeito no dia em que é utilizado. Não é um tratamento que acumula no corpo e vai te protegendo depois.
Então, mesmo que você use todas as noites por um mês, dois meses ou um ano, se em determinado momento decidir não usar por algumas noites, por exemplo numa viagem em que não quis levar o aparelho, naquelas noites você pode ter a mesma quantidade de apneias que tinha antes de começar o tratamento.
Na manhã seguinte, é comum acordar como se estivesse de ressaca: cansado, com dor de cabeça, com perda de memória, exausto, com a sensação de não ter dormido nada. Não é o corpo pedindo o aparelho. É a apneia fazendo o que sempre fez, e que você tinha esquecido como era.
E nessas noites, se prepare, porque os ouvidos de quem estiver ao redor também podem sofrer um pouco. O ronco volta junto.
Se essa é a sua situação, levar o CPAP na viagem é mais simples do que parece, e resolve o problema inteiro.
Tratamento contínuo não é a mesma coisa que dependência
Muita gente confunde as duas coisas, e vale separar.
Existem tratamentos que curam e acabam, e existem tratamentos que acompanham a pessoa enquanto a condição existir. O CPAP é do segundo tipo, do mesmo jeito que outros cuidados de saúde que a gente usa todo dia sem chamar de vício.
A diferença prática é essa: no vício, você usa porque o corpo cobra. No tratamento contínuo, você usa porque funciona.
E quantas apneias são normais?
Já que a gente está falando em resultado, vale deixar a régua clara.
Até 5 apneias por hora é normal. Todo mundo tem alguma. Se o seu relatório mostra um número abaixo disso, é sucesso no tratamento, e não motivo de preocupação.
É esse o alvo do aparelho: mandar ar suficiente para você ficar em no máximo 5 apneias por hora. Como conferir esse número no seu próprio equipamento, e o que fazer quando ele está alto, está no artigo sobre os erros mais comuns no uso do CPAP.
O essencial, em 30 segundos
- O CPAP não é medicamento e não causa alteração química nem neurológica.
- Não existe vício em CPAP. Existe gostar de dormir bem.
- O efeito vale só na noite em que ele é usado. Não acumula.
- Parou algumas noites? A apneia volta como era, e o ronco também.
- Até 5 apneias por hora é normal.
O próximo passo
Se essa dúvida era o que estava te segurando, ela não precisa mais segurar. O medo de ficar preso ao aparelho tem tirado o sono de muita gente por muito mais tempo do que o próprio aparelho tiraria.
E se você já tem o diagnóstico mas ainda não chegou no momento de dizer “eu quero usar o CPAP essa noite”, isso também tem conversa. Quase sempre é questão de ajuste, não de força de vontade, e é disso que eu falo em quero parar de usar o CPAP.
Me chame no WhatsApp que eu te ajudo, inclusive por telemonitoramento, de qualquer estado ou país.
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