CPAP

Os erros mais comuns no uso do CPAP, do inofensivo ao urgente

O CPAP pode piorar o seu sono, sim, e quase sempre por cinco motivos: máscara errada, pressão alta demais, ruído que ninguém investigou, umidificador desligado e falta de acompanhamento dos dados. Nenhum deles é defeito do aparelho. Todos são ajuste, e todos têm conserto.

“Doutora, antes eu dormia mais tempo, meu sono era mais contínuo, eu não tinha boca seca, eu não acordava por causa do barulho. Eu sinto que eu tinha mais energia sem o CPAP do que com o CPAP.” Eu ouço essa frase no consultório com frequência, e ela quase nunca é implicância de quem procura defeito. Esses sintomas costumam ser reais.

Prefere assistir? Este artigo nasceu deste vídeo do canal.

Sou a Bianca, fisioterapeuta respiratória, há mais de 15 anos acompanhando adaptação ao CPAP.

Os erros ranqueados, do inofensivo ao urgente

Antes de entrar em cada um, um mapa. Eu separo os erros que vejo todo dia em cinco níveis de gravidade:

ErroGravidade
Usar oronasal por preferência, sem apneia residual nem complicaçãoDá para viver
Usar um CPAP semi-novo que foi calibrado, higienizado e ajustado para vocêDá para viver
Ignorar um vazamento pequenoOpa, algo de errado não está certo
Usar CPAP automático sem configuraçãoOpa, algo de errado não está certo
Comprar máscara sem prescriçãoOpa, algo de errado não está certo
Máscara frouxa ou apertada demaisAí começa a dar ruim
Usar máscara nasal respirando de boca abertaAí começa a dar ruim
Não trocar o filtroSeria cômico se não fosse trágico
Ter vergonha de usar a máscaraSeria cômico se não fosse trágico
Ter um arsenal de máscaras e trocar dia após diaSeria cômico se não fosse trágico
Não trocar a água do umidificadorSocorro, chama a físio
Usar um CPAP de outra pessoa sem calibrar nem ajustarSocorro, chama a físio
Deixar o CPAP abandonado no armárioSocorro, chama a físio
Máscara velha, ressecada, larga ou rasgadaSocorro, chama a físio
Não fazer acompanhamento nenhum depois de começarSocorro, chama a físio
Mexer na configuração sozinhoSocorro, chama a físio

Repare que a maioria dos casos graves não tem nada a ver com o aparelho. Tem a ver com o que ninguém explicou na entrega.

Sobre o CPAP no armário eu preciso insistir: você tem diagnóstico de apneia, teve prescrição do aparelho, comprou, e não usa. É igual comprar remédio e não tomar. A cura não aparece sozinha.

Qual é a máscara certa para mim?

Este é o erro número um, e o que mais estraga tratamento.

Existem estudos comparando a máscara pillow, aquela bem pequenininha que entra no nariz, com a nasal e com a oronasal, incluindo milhares de pacientes. Essa normativa já está muito bem definida: a máscara de primeira escolha é a nasal.

Você pode me dizer que respira de boca aberta, que não consegue respirar pelo nariz, que tem desvio de septo, que tem congestão. Vamos tentar a nasal mesmo assim. O fluxo respiratório do CPAP entra tão alto pelo nariz que, na prática, a boca se fecha depois.

As máscaras maiores geram mais aerofagia, que é engolir ar, obrigam o CPAP a mandar mais ar ainda, têm mais risco de apneia residual e vazam por tudo quanto é lado. Já a pillow é oito ou oitenta: ou a pessoa coloca e ama, ou não tolera.

Eu tive um paciente que não queria de jeito nenhum sair da oronasal. Eu insisti, porque a minha prescrição para o caso dele era máscara nasal. Ele saiu de mais de trinta apneias por hora para menos de cinco, só com a troca da máscara. Nada mais mudou.

E qual nasal, entre a infinidade que existe? Aí depende de prescrição: posição de sono, hábitos, índice de apneia, o que apareceu na polissonografia. O guia de tipos de máscara te ajuda a entender os formatos, mas a escolha final é clínica.

Uma consulta de prescrição sai muito mais barato do que comprar máscara por achismo. Eu já recebi paciente que chegou com o CPAP e três máscaras diferentes na sacola. Ele gastou oito vezes o valor de uma consulta, ficou com um monte de máscara que não ia usar e continuou dormindo mal.

E é por isso que ficar trocando de máscara toda semana atrapalha: uma máscara precisa de algumas noites para ser ajustada. Só depois de esgotar os ajustes é que a gente troca.

Pressão alta trata melhor?

Não. E este é o segundo erro mais comum.

Não é porque o seu exame mostrou 40 ou 60 apneias por hora que você precisa da pressão máxima. Ter um CPAP automático é maravilhoso, é muito mais confortável, mas ele precisa estar configurado. Não adianta deixar na faixa aberta de fábrica, de 4 a 20 centímetros de água. É muito ar.

Imagina você dormindo e, no meio da noite, o aparelho manda 16, 18 centímetros de água. Aquilo gera um desconforto que faz escapar ar, você tenta fechar a boca e não consegue, vira de um lado, vira do outro, começa o barulho. Não tem como dormir.

Na maioria dos casos em que eu pego um paciente nessa situação, eu reduzo a pressão de tratamento. A gente traz conforto de volta, e o resultado melhora junto.

Meu CPAP faz barulho, é normal?

Não deveria. Os CPAPs de hoje trabalham em torno de 30 decibéis, um ruído bem menor que o de um ar-condicionado split.

A gente está tratando ronco. Não faz sentido tirar o ronco e colocar no lugar o barulho de uma máquina ou o chiado de uma máscara.

Se o seu faz barulho, o primeiro passo é descobrir de onde ele sai:

O somOnde está o problemaO que fazer
Um som fino, agudo, tipo um assobioA borracha de vedação do umidificador não está bem encaixadaReencaixar o umidificador com atenção e conferir se o ruído sumiu
Água borbulhandoNível de água alto demais ou umidificação configurada muito altaReduzir os dois, para não acumular água na traqueia
Um chiado de chaleiraVazamento de ar na máscara, ou a válvula exalatóriaReajustar a vedação. Algumas máscaras têm válvula mais suave que outras
Um ruído mais grosso, de turbinaA ventoinha do aparelhoDentro dos 2 anos de garantia, mandar para a revenda. Fora dela, assistência técnica para calibrar e limpar

E tem um ponto que quase ninguém levanta: se o seu companheiro ou companheira de cama reclama que o jato de ar da máscara incomoda, isso conta. Existem máscaras com válvula exalatória bem mais suave. A qualidade de sono é de todo mundo da casa, não só sua.

Preciso mesmo do umidificador?

Precisa. E se for paciente meu, não tem escolha.

Eu entendo quem usa CPAP há dez ou doze anos e se acostumou sem, porque na época os umidificadores eram quase inacessíveis. Mas quem está começando hoje não tem motivo para abrir mão.

O umidificador tem duas funções, umidificar e aquecer o ar. Não é luxo: é o que o seu próprio corpo já faz. O sistema mucociliar das mucosas da via aérea, com o muco produzido ali, existe justamente para manter o ar quentinho e úmido antes de chegar ao pulmão. O umidificador do CPAP faz a mesma coisa pelo ar que vem do aparelho.

Boca seca de manhã quase sempre é isso. Se você ainda não tem umidificador, é o primeiro item a resolver. Se já tem, é usá-lo direito: várias marcas permitem regular a umidade e a temperatura separadamente, e o ajuste muda com a estação. No inverno o erro mais comum é aumentar quando o certo seria diminuir.

Uma regra que não é negociável: troque a água a cada três dias, no máximo. Leva menos de 30 segundos. Água parada no umidificador não é só questão de sono, é a qualidade do ar que você respira a noite inteira.

Na mesma linha, o filtro. Troca a cada dois meses, no máximo. Filtro sujo não se negocia.

Como eu sei se o meu tratamento está funcionando?

Olhando os seus dados. E aqui eu preciso te falar uma coisa que muita gente não sabe.

Os relatórios do seu CPAP são um documento seu. Funcionam como um prontuário clínico, e é direito seu ter acesso a eles.

Eu canso de atender pacientes que passaram por outros serviços e nunca receberam feedback nenhum. Não sabem quantas apneias estão tendo, não sabem se o resultado está coerente. Imagina usar o aparelho todas as noites, estar com mais de 20 apneias por hora e não fazer ideia disso.

Hoje quase toda marca tem aplicativo de monitoramento gratuito:

AplicativoMarca
MyAirResMed
DreamMapperPhilips Respironics
SleepStyleFisher & Paykel
SmartLiveGaslive
PAP LinkBMC

Para não ter que caçar cada um: eu montei um PDF com os links de download de todos eles, para Android e iOS.

E mesmo que o seu aparelho não tenha conectividade, ele mostra na própria tela o essencial:

  • índice de apneia
  • pressão média que você respirou
  • vazamento médio de ar, em litros por minuto
  • tempo de uso

Até os modelos bem antigos mostram o último dia, a última semana, o último mês e alguns meses de tratamento. Se o seu clínico ainda não te ensinou a chegar nessa tela, o seu acompanhamento precisa melhorar.

Só um cuidado, e este é o erro que fecha a lista dos urgentes: ver os dados não é o mesmo que mexer na configuração sozinho. Vídeo, inteligência artificial e fórum dão noção, mas a regulagem precisa ser precisa para o seu caso, e isso ainda não roda sozinho.

Já uso CPAP há anos. Preciso rever alguma coisa?

Provavelmente sim, e esse é o recado mais importante para quem já está em tratamento há seis meses, dois anos ou mais de cinco.

Faz quanto tempo que você não sabe como estão os seus resultados? Quantas apneias você está tendo agora, qual é a pressão média, quanto está vazando?

A gente faz check-up anual de tudo. Exame de sangue, exame de coração, exame de mama, exame de próstata. Por que o seu sono não tem monitoramento pelo menos uma vez por ano?

E se o seu CPAP é antigo, sem nuvem, isso não é impedimento. Dá para fazer o monitoramento pelo cartão de memória, alguns aparelhos arquivam o relatório e compartilham por e-mail, existem softwares de leitura a distância, e mesmo nos modelos bem antigos, como o S8 da ResMed, dá para ver os dados na tela do próprio equipamento.

O que me preocupa no uso longo é a acomodação. Sabe quando a gente tem uma dorzinha, começa a andar mancando, se acostuma, e aquilo vira hábito? Acontece igual com o CPAP. Três sinais de que você se acostumou com algo que não deveria:

  1. Você ronca usando o CPAP. Não deveria. O CPAP é tratamento para apneia e para o ronco. Se está roncando, ele não está bem ajustado para o seu caso.
  2. Você acorda com a boca seca. Tem solução, e ela começa no umidificador.
  3. A sua máscara e a sua traqueia estão velhas. Programe a troca uma vez por ano. Passar de um ano e meio ou dois anos com a mesma interface não dá: você já tentou lavar, já tentou tirar o amarelado, e tem hora que é lixo. Pense no travesseiro, no pijama, no chinelo. Nada disso dura a vida inteira, e a máscara você usou a noite inteira, todas as noites, o ano todo.

Sobre limpeza do dia a dia: a parte que encosta no rosto se higieniza todo santo dia, com lenço umedecido sem álcool. Quem prefere água corrente com detergente neutro, tudo bem também. A limpeza completa, semanal, está no artigo sobre como limpar a máscara.

O CPAP trata insônia?

Não. E essa confusão faz muita gente achar que o aparelho falhou.

Os dois principais distúrbios de sono são a apneia e a insônia, e tem gente que tem os dois juntos. O CPAP trata a apneia. Se você também tem insônia, são duas abordagens diferentes, e uma não substitui a outra.

Agora, atenção ao caso oposto: se antes do CPAP você dormia a noite inteira e depois começou a acordar várias vezes, isso não é insônia. É pressão desregulada ou máscara inadequada. Aí o aparelho não está te ajudando, e a solução é ajuste.

O essencial, em 30 segundos

  • Máscara nasal é a primeira escolha, mesmo para quem jura que respira pela boca.
  • Pressão máxima não trata melhor. Na maior parte dos casos ruins, a correção é reduzir.
  • CPAP não faz barulho. Se faz, descubra se vem do aparelho, da traqueia ou da máscara.
  • Umidificador ligado, água trocada a cada 3 dias, filtro a cada 2 meses.
  • Máscara e traqueia novas uma vez por ano.
  • Olhe os seus dados. O relatório é documento seu, e o aplicativo é gratuito.
  • Não mexa na configuração sozinho.

O próximo passo

Se você se reconheceu em algum ponto desta lista, a boa notícia é que nenhum deles exige comprar outro aparelho. Todos são ajuste.

Comece pelo mais fácil de conferir hoje à noite: ligue o umidificador, troque a água e olhe o relatório da última semana. Só isso já te dá o diagnóstico de onde o problema está.

Se você quer aprender a usar o CPAP com conforto, segurança e autonomia, sem ficar tentando adivinhar, é exatamente isso que eu ensino no Descomplica CPAP, em videoaulas práticas que vão do diagnóstico ao ajuste fino da máscara.

E se o seu caso pede um olhar individual, me chame no WhatsApp. A gente faz consulta de prescrição, de avaliação ou de configuração, inclusive por telemonitoramento, de qualquer estado ou país.

Conte comigo.

Quer isso aplicado ao seu caso?

Conteúdo ajuda, mas cada caso é um caso. Do exame domiciliar à adaptação completa ao CPAP, com acompanhamento humano.