CPAP

Recall de CPAP da Philips: o que aconteceu e o que fazer se você tem um

O recall da Philips começou em junho de 2021, por causa de uma espuma interna que podia se degradar. No Brasil a Anvisa suspendeu as vendas temporariamente e depois autorizou a troca da espuma, a substituição dos aparelhos e o reembolso. Se você usa CPAP, não interrompa o seu tratamento por conta própria.

Esse é o assunto sobre o qual eu mais recebo pergunta, e também o que mais circula pela metade. Eu não estou aqui para alarmar ninguém, nem para defender ou julgar uma empresa. Este texto acompanha o vídeo abaixo, com todas as fontes reunidas e organizadas para consulta.

Prefere assistir? Este artigo nasceu deste vídeo do canal.

Sou a Bianca, fisioterapeuta respiratória, há mais de 15 anos acompanhando adaptação ao CPAP.

Antes de tudo: não pare o tratamento sozinho

Essa é a parte mais importante do artigo, e por isso ela vem antes dos fatos.

A apneia do sono não tratada tem consequências graves, já bem documentadas na literatura científica. Parar de usar o aparelho por medo, por conta própria, troca um risco discutido por um risco conhecido.

Qualquer decisão sobre o seu tratamento precisa ser tomada junto com o seu médico ou fisioterapeuta do sono, com base no seu caso. Se você quiser entender o tamanho do que está em jogo, eu falo disso no artigo sobre o que acontece quando você para de respirar.

O que aconteceu em 2021

Em junho de 2021 a Philips emitiu um recall voluntário e preventivo, a nível mundial, envolvendo CPAPs, BiPAPs e ventiladores mecânicos.

O motivo foi a espuma de redução de ruído usada internamente nos equipamentos, conhecida como PE-PUR. A empresa identificou que essa espuma poderia se degradar com o tempo e liberar partículas ou compostos químicos que poderiam ser inalados ou ingeridos pelo usuário.

Segundo a própria carta ao cliente que a Philips registrou junto à Anvisa, os riscos potenciais incluíam:

  • irritação de pele, olhos e trato respiratório
  • resposta inflamatória
  • dor de cabeça
  • asma
  • efeitos adversos em órgãos como rins e fígado
  • efeitos carcinogênicos tóxicos

Quais aparelhos entraram

EquipamentoObservação
DreamStation de primeira geraçãoInclusive na versão automática
System OnePrincipalmente as séries 50 e 60
DreamStation GoO portátil da linha
BiPAPs e ventiladores mecânicosIncluindo os Trilogy 100 e 200

O corte é por data de fabricação: modelos fabricados até abril de 2021. A lista completa, com os números de série, está no site da Philips, e é lá que você confere o seu.

Se o seu aparelho é um DreamStation e você quer entender o resto dele, a configuração e o que costuma dar errado no dia a dia estão no review completo do DreamStation.

O que a Anvisa fez no Brasil

A Anvisa agiu rápido. Em 29 de junho de 2021 determinou a suspensão da importação, da distribuição e da comercialização desses equipamentos no país.

Poucos meses depois, autorizou três caminhos de solução: a substituição da espuma antiga por espuma de silicone, a substituição do próprio equipamento, e em alguns casos o reembolso. Aqui no Brasil muita gente recebeu um aparelho de outra marca no lugar.

Duas conclusões práticas disso:

  1. A suspensão no Brasil foi temporária, vinculada ao período do recall.
  2. Atualmente a Philips continua comercializando novos equipamentos de sono e cuidados respiratórios no Brasil, sujeita à regulamentação da Anvisa.

Os dois lados da questão

Aqui é onde a conversa costuma virar torcida, e não deveria. Não é um quadro preto e branco.

O que a Philips apurou

Depois do recall, a empresa conduziu um programa de testes em cinco laboratórios independentes, seguindo normas internacionais.

Em maio de 2023 divulgou os resultados finais para os dispositivos de sono, abrangendo cerca de 95% dos equipamentos registrados globalmente. A conclusão foi de que é improvável que a exposição a partículas e compostos orgânicos voláteis resulte em dano apreciável à saúde dos pacientes.

A empresa também cita estudos epidemiológicos publicados no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine e no jornal da ERS que não encontraram aumento no risco de câncer entre usuários de CPAP.

O que a FDA respondeu

Em outubro de 2023 a agência americana declarou que não considerava os testes e análises compartilhados pela Philips adequados para avaliar completamente os riscos aos usuários, e solicitou novos testes. A Philips concordou e os conduziu.

A FDA informou ainda ter recebido mais de 116 mil relatos de efeitos adversos associados à degradação da espuma PE-PUR. Os tipos de lesão reportados incluem câncer, pneumonia, asma, infecções, dor de cabeça, tosse, falta de ar, tontura, nódulos e dor no peito.

Dois contextos que precisam vir junto desse número, senão ele engana:

  • A Philips declarou não ter encontrado dados conclusivos ligando seus dispositivos a esses efeitos adversos.
  • A própria FDA esclarece que relatos de eventos adversos não constituem, por si só, prova de que o dispositivo causou ou contribuiu para o evento. São sinais que a agência considera relevantes, e não conclusões.

Então: existem estudos que não encontraram risco significativo, e existe uma agência regulatória que considera que a avaliação ainda não foi suficiente. Os dois lados contam.

O acordo nos Estados Unidos, e por que não é uma proibição

Essa é a parte que mais circula errada, e eu mesma já resumi errado num vídeo antes de estudar o documento. Faço a correção aqui.

Em abril de 2024, um tribunal federal dos Estados Unidos homologou um decreto de consentimento, um acordo judicial negociado entre a Philips e o governo americano para resolver a disputa. Com exceções limitadas, ele restringe a produção e a venda de novos CPAPs e BiPAPs em algumas instalações da Philips nos Estados Unidos, até que determinados requisitos regulatórios sejam cumpridos.

O que esse decreto não é:

  • não é uma declaração de que os equipamentos são defeituosos
  • não é uma proibição geral de venda de CPAP da Philips
  • não vale fora dos Estados Unidos

Ele é uma ferramenta jurídica específica daquela jurisdição, focada nas operações da Philips Respironics nos Estados Unidos, e a empresa concordou com ele como caminho para demonstrar conformidade e retomar as atividades.

Fora dos Estados Unidos, inclusive aqui no Brasil, a Philips continua fornecendo dispositivos, acessórios e serviços, sujeita aos requisitos regulatórios locais, que no nosso caso são os da Anvisa e não os da FDA. São jurisdições distintas, e misturar as duas é a origem de boa parte da confusão.

E o recall de 2025?

Esse também circulou como se fosse o retorno do problema da espuma. Não é.

Em junho de 2025 a Philips emitiu um recall para certos DreamStation Auto e BiPAP Auto, aproximadamente 93 unidades, sendo 65 nos Estados Unidos e 28 na França.

O motivo foi um erro de programação introduzido durante o trabalho de um fornecedor, que poderia resultar em módulos de terapia incorretos: um BiPAP configurado como CPAP, pressão limitada ou funções indisponíveis. A FDA classificou esse recall como classe 1, o tipo mais sério.

Resumindo: erro de programação, num número restrito de equipamentos, e nada a ver com a espuma.

O que fazer se você tem um aparelho Philips

  1. Não pare o tratamento por conta própria. A FDA recomenda que pacientes que usam um dispositivo reparado ou substituído continuem a usar o produto. A agência chegou a essa conclusão com base numa avaliação geral de risco e benefício: interromper pode ser mais prejudicial à saúde e à qualidade de vida do que manter.
  2. Confira o número de série do seu aparelho na página oficial do programa de recall da Philips no Brasil.
  3. Converse com quem acompanha o seu tratamento antes de decidir qualquer coisa.
  4. Se o seu aparelho já foi remediado ou substituído, siga usando e mantenha o acompanhamento dos seus dados em dia.

O essencial, em 30 segundos

  • Junho de 2021: recall mundial voluntário por causa da espuma PE-PUR.
  • Afetados: DreamStation de 1ª geração, System One, DreamStation Go e outros, fabricados até abril de 2021.
  • No Brasil: Anvisa suspendeu, depois autorizou troca da espuma, substituição e reembolso. A Philips vende normalmente hoje.
  • Os dois lados: testes da Philips não acharam dano apreciável; a FDA achou a avaliação insuficiente e registrou 116 mil relatos, que não são prova de causalidade.
  • O acordo de 2024 nos EUA não é proibição nem declaração de defeito, e não vale no Brasil.
  • O recall de 2025 foi erro de programação em ~93 unidades, não a espuma.
  • A regra que vale para todo mundo: não interrompa o tratamento sozinho.

O próximo passo

Eu continuo trabalhando com a Philips, e existem muitos produtos excelentes na linha, como ventiladores mecânicos, máscaras e equipamentos de diagnóstico. Tenho respeito pelo histórico e pela capacidade técnica da empresa.

Ao mesmo tempo, faz parte do meu trabalho te dar o máximo de informação para que você decida com clareza sobre o seu próprio tratamento e sobre o seu próximo equipamento. Quando a orientação precisa ser reajustada, a gente reajusta, e foi por isso que este artigo existe na versão que você acabou de ler.

Na hora de escolher o seu próximo aparelho, considere os que têm bom histórico, boa manutenção e boa efetividade. Nem sempre o melhor preço é a melhor escolha. O guia de compra de CPAP te dá os critérios.

Ficou com dúvida sobre o seu aparelho ou sobre o seu número de série? Me chame no WhatsApp que eu te ajudo a checar, inclusive por telemonitoramento, de qualquer estado ou país.

Conte comigo.

Quer isso aplicado ao seu caso?

Conteúdo ajuda, mas cada caso é um caso. Do exame domiciliar à adaptação completa ao CPAP, com acompanhamento humano.