As complicações mais comuns do CPAP são ressecamento de nariz e olhos, lesões de pele, aerofagia e despertares frequentes durante a noite. Quase todas nascem de 3 pontos: ajuste da máscara, pressão mal configurada e umidificação insuficiente. Revisando esses pontos, com acompanhamento dos seus relatórios, dá para corrigir cada uma sem interromper o tratamento.
Essas são as 4 queixas que eu mais ouço no consultório. E quero começar pelo mais importante: se você sente alguma delas, o problema não é você. Na maioria das vezes, é um detalhe de configuração ou de ajuste que ninguém te ensinou.
Vamos passar por cada uma, com a causa provável e o que fazer na prática.
Por que o CPAP resseca o nariz e os olhos?
A causa mais frequente é uma máscara mal ajustada. Ela pode estar apertada demais, frouxa demais ou posicionada de forma inadequada. Revisar o ajuste da máscara é a primeira coisa a fazer.
A segunda causa é uma pressão mais alta do que você realmente precisa. Muita gente usa o aparelho automático do jeito que veio da loja, com a janela de pressão aberta de 4 a 20. Nessa configuração, o CPAP decide sozinho dentro de uma faixa enorme, e a pressão pode ficar acima do que o seu caso pede.
A terceira é o umidificador ausente ou regulado fraco demais. O umidificador aquece e umidifica o ar que você respira; sem ele, ou com ele no mínimo, falta a umidade que evitaria esse ressecamento. Falei mais sobre umidificação em CPAP no inverno.
Para não passar mais uma semana com esse desconforto, acompanhe os dados: algumas marcas mostram seus relatórios no aplicativo, e o seu fisioterapeuta respiratório pode revisar esses números e reajustar o equipamento periodicamente.
Máscara do CPAP machucando a pele: o que fazer?
As lesões de pele acontecem, na maioria dos casos, com as máscaras maiores: as nasais e as oronasais, que cobrem boca e nariz. As causas mais comuns são pele sensível ou alergia a algum material do equipamento, e máscara apertada demais.
Aqui vai uma regra que eu repito sempre: ajustar a máscara não é apertar a máscara. É posicionar no lugar ideal do rosto e usar o tamanho correto. As máscaras têm tamanhos, muitas vezes do PP ao GG, e o certo para você depende da anatomia do seu rosto.
O teste é simples: nas duas laterais da máscara, um dedo precisa passar de forma justa. Nem difícil de entrar, nem folgado.
Se mesmo ajustando e trocando o tamanho da almofada a pele continuar sofrendo, hidrate bem a região com uma pomada específica, com pelo menos 10% de ureia, e avalie trocar o modelo por uma máscara de mínimo contato. No guia de tipos de máscara eu explico as diferenças entre elas.
Engolir ar com o CPAP: como resolver a aerofagia?
Aerofagia é engolir o ar da terapia. É mais comum em quem usa máscara oronasal, porque ela permite abrir a boca ali dentro, e o volume de ar acaba entrando pela boca. Mas também acontece com máscara nasal quando a boca fica aberta durante o sono.
Por trás disso, de novo, pode estar uma pressão forte demais ou aquela janela do automático aberta demais, gerando uma flutuação muito grande de pressão ao longo da noite.
O que funciona na prática:
- Se você usa máscara oronasal, evoluir para uma máscara nasal.
- Mudar a posição de dormir: de barriga para cima a boca abre mais, então tente se habituar a dormir de lado.
- Se dormir de lado doer em outras partes do corpo, eleve a cabeceira da cama cerca de 30 a 40 graus, com um travesseiro a mais ou um colchão antirrefluxo.
- Usar 2 micropores nos cantos da boca por cerca de 30 dias: um de cada lado, na metade do caminho entre o meio dos lábios e o canto da boca. Parece arcaico, mas dá muito certo. É um estímulo de propriocepção, um lembrete que o corpo sente para manter a boca fechada. Depois desse período, você não precisa mais.
Por que acordo mais vezes desde que comecei o CPAP?
Alguns pacientes me contam exatamente isso: “Bianca, antes do CPAP eu acordava 1 vez, ou nem acordava. Agora acordo muitas vezes durante a noite.”
Essa fragmentação do sono costuma vir de uma variação muito intensa de pressão durante o tratamento. De novo, o vilão é o CPAP automático com a janela aberta: a pressão fica horas em 4, horas em 5, horas em 12, horas em 17. Isso é péssimo para o controle neurológico do sono e para a estabilidade da via aérea.
O que queremos é o contrário: uma flutuação curta, dentro de uma faixa estreita, para a sua via aérea ficar aberta a noite inteira e o seu cérebro não entender que precisa despertar.
Na grande maioria dos casos, esses despertares estão simplesmente relacionados à configuração do aparelho. Não é o tratamento que falhou, é o ajuste que ainda não foi feito.
Resumo: o que fazer em cada situação
| Problema | Causa provável | O que fazer |
|---|---|---|
| Ressecamento de nariz e olhos | Máscara mal ajustada, pressão alta demais, umidificador ausente ou fraco | Revisar o ajuste, acompanhar os relatórios, regular o umidificador |
| Lesões de pele | Máscara apertada ou de tamanho errado, pele sensível, alergia ao material | Reposicionar, testar o tamanho certo, hidratar com pomada com 10% de ureia, avaliar máscara de mínimo contato |
| Aerofagia (engolir ar) | Boca aberta durante o sono, pressão forte ou janela automática aberta demais | Migrar para máscara nasal, dormir de lado, elevar a cabeceira, micropore por cerca de 30 dias |
| Acordar muitas vezes à noite | Variação intensa de pressão, janela automática aberta (de 4 a 20) | Revisar a configuração e estreitar a faixa de pressão com quem acompanha você |
Perguntas frequentes
Ajustar a máscara do CPAP é apertar mais?
Não. Ajustar é posicionar a máscara no lugar ideal do rosto e usar o tamanho correto para a sua anatomia. O teste: um dedo deve passar de forma justa nas duas laterais. Apertar demais é justamente uma das causas de lesões de pele.
Preciso usar o micropore para sempre?
Não. Cerca de 30 dias costuma ser suficiente. Ele funciona como um estímulo para o corpo reaprender a manter a boca fechada durante o sono. Depois disso, você segue só com a sua máscara nasal.
Acordar mais vezes com o CPAP significa que ele não funciona para mim?
Na grande maioria dos casos, não. Esses despertares costumam estar ligados à configuração do aparelho, principalmente à variação de pressão de um automático com a janela aberta. Revisar essa faixa com quem acompanha o seu tratamento é por onde a correção começa.
Essas complicações são motivo para parar o tratamento?
Não. O CPAP é um tratamento maravilhoso e pode melhorar muito a sua qualidade de vida. Essas complicações pedem cuidados simples de corrigir, com ajuste e acompanhamento, não a interrupção do tratamento.
Se você se reconheceu em algum desses sintomas, saiba: você não está sozinho, e nenhum deles precisa virar motivo para desistir. Se quiser esse acompanhamento de perto, a minha equipe faz a adaptação de CPAP em 30 dias. Conte comigo.